3 de julho de 2026 • cerca de 22 minutos

Cozinhando devagar com o que a estação oferece

Não cozinho para impressionar. Cozinho porque gosto de ver como as coisas se transformam quando se lhes dá tempo e atenção.

Quando vivi na Holanda, cozinhar era uma tarefa que eu tentava despachar o mais rápido possível. Comprava ingredientes prontos, seguia receitas de sites, queria que a comida estivesse na mesa em menos de trinta minutos. O resultado era quase sempre aceitável, mas nunca memorável.

Aqui em Portugal, tudo mudou. Não porque a comida seja melhor — embora muitas vezes seja — mas porque a forma de cozinhar é diferente. As pessoas não parecem ter pressa. Os pratos demoram o tempo que demoram. E isso, de alguma forma, faz com que o resultado tenha mais sabor.

O que significa “cozinhar devagar” para mim

Não é sobre técnicas complicadas. É sobre não correr. Quando começo a preparar algo, desligo o telemóvel ou ponho-o noutro quarto. Ponho música baixa ou fico em silêncio. E deixo que cada passo demore o tempo que precisar.

Cortar uma cebola pode demorar três minutos ou dez. Depende de como estou a sentir-me. Se estiver com pressa, corto depressa. Se não estiver, corto devagar, reparando na forma como as camadas se separam. O resultado final é quase o mesmo. Mas o processo é completamente diferente.

O mesmo acontece com o fogo. Deixo o azeite aquecer devagar. Espero que as cebolas fiquem transparentes antes de juntar o alho. Não acelero nada. E descubro que os sabores ficam mais redondos, mais presentes.

O que a estação me ensina

Em Portugal, as estações marcam a cozinha de uma forma que eu não conhecia antes. No verão, como muito tomate cru, pepino, melancia. No outono, começam as abóboras, as castanhas, os cogumelos. No inverno, os legumes de raiz e os pratos de panela. Na primavera, as ervas frescas e as primeiras favas.

Não planeio menus com antecedência. Vou ao mercado e vejo o que está bom. Se os tomates estão doces e cheios de sabor, faço um molho simples. Se as courgettes estão firmes, corto-as em rodelas grossas e grelho-as com azeite e alho. O que sobra vira uma salada no dia seguinte.

Esta forma de cozinhar ensina-me a aceitar o que está disponível. Não fico frustrado se não encontro um ingrediente específico. Encontro outro. E muitas vezes descubro combinações que nunca teria pensado se estivesse a seguir uma receita.

Quando se cozinha com o que a estação oferece, a comida sabe sempre a “agora”. E isso é algo que nenhuma receita consegue ensinar.

Um exemplo simples de um dia de verão

Hoje de manhã trouxe do mercado: tomates maduros, uma cebola doce, manjericão fresco e pão de milho. Cheguei a casa, pus o azeite numa frigideira funda e deixei aquecer enquanto cortava a cebola em meia-luas finas. Quando a cebola ficou macia, juntei os tomates cortados em pedaços grandes. Deixei cozinhar em lume brando durante quase quarenta minutos, mexendo de vez em quando.

Enquanto isso, preparei uma salada rápida com pepino e cebola roxa que tinha sobrado de ontem. Quando o molho estava pronto, desliguei o lume e deixei repousar cinco minutos. Cortei o pão em fatias grossas, reguei com azeite e levei ao forno quente durante oito minutos.

Sentei-me à mesa com um prato fundo de tomate, o pão torrado ao lado e um copo de água com limão. Não era nada de especial. Mas estava quente, cheirava bem e eu tinha tempo para saborear cada garfada. Foi o suficiente.

O que fica depois de cozinhar

Não é só a comida. É o cheiro que fica na casa durante horas. É a panela que ainda está quente quando lavo a loiça. É a sensação de ter feito algo com as próprias mãos, mesmo que seja simples.

Nos dias em que não cozinho, sinto falta. Não da comida em si — da quietude que a cozinha me dá. Da forma como o tempo parece abrandar quando se está a mexer panelas e a cheirar o que está a cozinhar.

Não tenho uma cozinha grande. Tenho uma bancada pequena, um fogão com quatro bicos e um forno antigo. É suficiente. O que importa não é o espaço. É a disposição para deixar que as coisas demorem o tempo que demoram.

— Glen Kuiper, Loulé, julho 2026