Glen Kuiper
Holandês de origem, português de coração. Escrevo sobre o que vejo quando abro a janela de manhã e sobre o que sinto quando deixo o dia demorar-se um pouco mais.
Cheguei a Portugal em 2014. Não foi um plano antigo. Tinha trinta e cinco anos, trabalhava numa empresa de tecnologia em Amesterdão e sentia que a minha vida estava a correr mais depressa do que eu conseguia acompanhar. Os dias eram cheios de reuniões, de emails, de objetivos trimestrais. À noite, chegava a casa cansado e sem saber muito bem o que tinha feito durante o dia que realmente importasse.
Um amigo que tinha comprado uma casa no Algarve convidou-me para passar duas semanas. Eu disse que sim mais por educação do que por vontade. Não esperava nada de especial. Mas nos primeiros dias aqui, algo aconteceu. Acordei uma manhã e, em vez de pensar na próxima reunião, fiquei a olhar para o telhado vermelho da casa ao lado durante quase vinte minutos. Não fiz nada. Apenas olhei. E senti algo que não sentia há muito tempo: calma.
O que me fez ficar
Não foi uma decisão dramática. Não vendi tudo de um dia para o outro. Voltei a Amesterdão, dei dois meses de aviso no trabalho e comecei a organizar a mudança. Comprei uma casa pequena numa aldeia perto de Loulé — paredes grossas, telhado de telha, um pequeno quintal com três laranjeiras. Não era perfeita. Tinha humidade no inverno e o forno era antigo. Mas era minha.
Os primeiros meses foram estranhos. Tinha demasiado tempo. Acordava, tomava o pequeno-almoço e não sabia o que fazer a seguir. Tentei preencher os dias com projetos — arranjar a casa, aprender português, escrever um blog sobre a mudança. Nada me satisfazia completamente. Foi só quando comecei a não preencher os dias que as coisas começaram a fazer sentido.
Comecei a ir ao mercado todas as terças e sextas. Não porque precisasse de comprar muito. Porque gostava de ver as mesmas caras, de ouvir as mesmas conversas, de sentir o cheiro do peixe fresco e do pão quente. Comecei a cozinhar sem receitas. Comprava o que parecia bom e tentava descobrir o que fazer com aquilo. Muitas vezes saía mal. Outras vezes saía surpreendentemente bem. E isso era suficiente.
Como surgiram estas páginas
Não planeei escrever. Tinha um caderno onde anotava coisas — o preço dos figos naquela semana, o nome de uma erva que a senhora do mercado me tinha dado, o som que a porta da varanda fazia quando o vento batia. Com o tempo, as anotações ficaram mais longas. Comecei a descrever como me sentia quando via a luz da tarde a entrar pela janela da cozinha. Como o dia parecia diferente quando não corria atrás dele.
Um dia, uma amiga que vive em Lisboa leu algumas páginas e disse que eu devia partilhar. Eu ri. Não via nada de especial naquilo. Mas ela insistiu. Criei este espaço — primeiro como um pequeno site pessoal, depois como estas páginas que agora existem. Não tenho seguidores. Não tenho plano de crescimento. Escrevo quando me apetece e publico quando sinto que algo está pronto.
O que aprendi nestes doze anos
Aprendi que o tempo não é uma coisa que se gere. É uma coisa que se habita. Que os dias não precisam de ser cheios para serem bons. Que uma conversa de cinco minutos com o vendedor de queijo pode ser mais significativa do que uma reunião de uma hora.
Aprendi também que a simplicidade não é uma estética. É uma prática. Requer atenção. Requer que se diga não a muitas coisas para poder dizer sim a poucas. E que isso, por vezes, é difícil. Mas que vale a pena.
Não tenho grandes conselhos para dar. Não sou um especialista em nada. Sou apenas alguém que decidiu abrandar e que descobriu que, ao abrandar, via mais coisas. E que gostava do que via.
Estas páginas são o registo disso. De um homem que veio do norte da Europa e que, aos poucos, foi aprendendo a viver com a luz, com o calor, com o ritmo de um lugar que não era o seu — e que agora, de alguma forma, se tornou o seu.
Mora em: Uma aldeia perto de Loulé, Algarve
Escreve desde: 2018
O que mais gosta: O mercado da terça-feira, o primeiro café da manhã e o som da chuva no telhado de telha.