12 de julho de 2026 • cerca de 18 minutos

O encanto dos mercados matinais

Não é só comprar legumes. É entrar num ritmo que existe há décadas e que, de alguma forma, continua a resistir ao tempo.

Quando cheguei a Portugal, os mercados foram uma das primeiras coisas que me conquistaram. Não por serem exóticos — afinal, já tinha visto mercados em vários países — mas pela forma como tudo parecia estar no lugar certo. As bancas organizadas com cuidado, as pessoas que chegam cedo e já sabem o que querem, o cheiro que muda conforme se caminha entre as filas.

Em Loulé, onde moro agora, o mercado municipal abre às sete da manhã. Chego quase sempre por volta das oito e meia. A luz ainda é suave, o ar fresco. Os vendedores já montaram tudo e alguns já têm o primeiro café na mão. Há uma senhora que vende queijo de cabra e que me cumprimenta sempre da mesma forma: “Hoje trouxe o que tu gostas”. Eu nem sei bem o que ela quer dizer com isso, mas sorrio e escolho dois queijos diferentes. Um para comer agora, outro para guardar.

O que se vê antes de se comprar

Os mercados têm uma ordem própria. Primeiro as frutas e legumes, depois o peixe, depois as carnes e os queijos. Eu sigo quase sempre o mesmo caminho. Gosto de ver o que está mais bonito naquele dia. Os tomates que parecem ter sido colhidos há minutos, as courgettes com a flor ainda agarrada, as ervas que cheiram tão forte que se sente a distância.

Uma das coisas que mais gosto é observar como as pessoas escolhem. Não há pressa. Uma mulher vira uma melancia várias vezes antes de decidir. Um homem pergunta ao vendedor de peixe qual foi o que chegou mais fresco hoje. Há conversas que duram cinco minutos sobre o preço de uma dúzia de ovos ou sobre se as batatas desta semana estão melhores que as da semana passada.

Não é o produto que importa mais. É o tempo que se demora a escolhê-lo e a conversa que surge enquanto se decide.

Com o tempo, comecei a reconhecer caras. Há o homem dos figos que me conta sempre uma história nova sobre a quinta dele. Há a senhora do pão que me ensinou como guardar a broa para que não seque tão depressa. E há o rapaz jovem que vende mel e que me perguntou um dia se eu já tinha provado mel de rosmaninho. Provei. E voltei na semana seguinte para comprar mais.

Os cheiros que ficam

Se tivesse de descrever o mercado com uma só coisa, seria o cheiro. Não é um cheiro só. É uma mistura que muda a cada passo. O doce dos figos maduros ao lado do salgado do peixe fresco. O perfume cortante das cebolas novas misturado com o aroma terroso das batatas. E por cima de tudo, o cheiro do café que sai da pequena cafetaria no canto do mercado.

Em casa, depois de voltar do mercado, o cheiro fica nas mãos durante horas. Mesmo depois de lavar. É como se o mercado quisesse lembrar-me que estive lá. E eu gosto disso. Gosto de abrir o frigorífico e sentir o cheiro das ervas que comprei há dois dias. Gosto de cortar uma fatia de pão e lembrar-me da conversa que tive com a senhora do pão.

Por que continuo a ir todas as semanas

Podia comprar tudo no supermercado. Seria mais rápido, mais cómodo, mais barato em alguns casos. Mas perderia algo que não se compra: o sentido de pertencimento a um lugar. Quando vou ao mercado, não sou apenas um cliente. Sou alguém que faz parte de uma pequena rotina coletiva. Os vendedores conhecem-me. Eu conheço-os. E isso, de alguma forma, faz com que o dia comece de maneira diferente.

Não trago sempre grandes sacos. Às vezes levo apenas um pão, umas ervas e dois tomates. Outras vezes volto com tanto que mal consigo carregar. O que importa não é a quantidade. É o facto de ter ido, de ter olhado, de ter falado com alguém e de ter trazido para casa algo que foi escolhido com atenção.

Nos dias em que não vou ao mercado, sinto falta. Não da comida — da atmosfera. Da luz que entra pelas janelas altas do mercado municipal. Do barulho controlado das conversas. Da sensação de que o tempo, por alguns minutos, abrandou o suficiente para eu reparar nas coisas.

Da próxima vez que fores a um mercado, não vás só comprar. Vai observar. Escuta. Cheira. E vê se não sentes também que algo se acalma por dentro quando se demora um pouco mais a escolher o que se vai comer.

— Glen Kuiper, Loulé, julho 2026